sábado, 2 de janeiro de 2010

Discípulos ou Consumidores?



Nos últimos anos, o Brasil vem testemunhando uma grande onda de adesão em massa ao chamado movimento evangélico. De um grupo modesto e sem expressão, nas primeiras décadas do século XX, os chamados evangélicos vão se multiplicando assustadoramente. O que, no passado, era motivo de perseguição e discriminação vai se transformando em algo cada vez mais comum e, porque não dizer, banal...

Igrejas são fundadas todos os dias, denominações dividem-se por qualquer motivo, canais de rádio e televisão são comprados, milhares de programas vão ao ar, produtos e mais produtos são vendidos, sem contar as Bíblias de todos os tamanhos, cores e traduções que lotam as estantes do mercado gospel. Tudo isso representa um pouco do complexo mosaico do cristianismo evangélico no Brasil e em muitas partes do mundo.
Não obstante, algo precisa ser avaliado e questionado: até que ponto igrejas cheias de pessoas significa que a fé cristã genuína está mesmo se difundindo? Estamos realmente presenciando um avivamento ou toda essa explosão religiosa não passa de alienação?
Nos tempos de Jesus, multidões o seguiam para ver os seus milagres, desfrutar de sua presença marcante e comer do pão gratuitamente distribuído pelos apóstolos. Entretanto, resta claro nos evangelhos que foram poucos os que quiseram pagar o preço do discipulado e deixar que as suas vidas fossem uma massa informe a ser moldada por Deus. O próprio Jesus disse: “aquele que quiser vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me”.
Uma recente pesquisa foi corajosamente realizada pela Igreja Willow Creek, nos Estados Unidos, tendo como amostra as mais de vinte mil pessoas que frequentam os seus cultos e demais programações, além dos frequentadores de dezenas de outras igrejas. As conclusões foram assustadoras e apontaram para a realidade de comunidades cristãs com milhares de consumidores de programas eclesiásticos, mas sem nenhuma profundidade em suas vidas com Deus.
Nas páginas do livro Reveal, ainda não publicado em língua portuguesa, Greg L. Hawkins, pastor executivo da Willow afirma que, historicamente, a mensagem deles foi: “Nós sabemos o que você precisa, e nós podemos suprir essas necessidades para você”. Entretanto, eles descobriram que esse tipo de abordagem nem sempre serviu, pois veio a criar nas pessoas uma doentia dependência com relação à igreja.
Em outras palavras, a igreja deve servir como uma parceira dos seus membros na busca pela maturidade espiritual, promovendo um discipulado saldável e útil para a expansão do Reino, ao invés de ficar tentando suprir as insaciáveis necessidades das pessoas que lotam os seus templos, tais como consumidores nos corredores de um Shopping Center.
Resumindo toda a lei judaica, Jesus afirmou que devemos amar a Deus sobre todas as coisas e ao nosso próximo como a nós mesmos. Em outras palavras, o nosso cristianismo será cada vez mais verdadeiro quando o nosso amor pelo Senhor e pelos outros aumentar em uma perspectiva prática.
O grande problema é que vivemos em um mundo que exalta o individualismo e que nos cega para os outros. Assim, se Deus serve aos meus interesses consumistas, tudo bem. Se alguém pode ser útil para a consecução dos meus planos, tudo bem. Essa é a regra do jogo para a grande maioria.
Enquanto não deixarmos de ver a Deus e as pessoas como batentes para o nosso progresso, não passaremos de sanguessugas religiosas.
Em contrapartida, quando o Senhor for a razão do nosso existir e o modelo para o nosso agir, estaremos em um caminho seguro que nos levará à maturidade e à verdadeira sabedoria.
Quando amarmos os outros como amamos a nós mesmos, estaremos mostrando para o mundo que o cristianismo verdadeiro não pode ser medido por multidões reunidas aos domingos, mas por mãos estendidas para abençoar pessoas durante todos os dias da semana.
Graça e paz!
Pr.Sérgio Queiroz

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