segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Convivendo com a pressão do ministério pastoral


por Mário Freitas

Ontem, sábado de sol, dia lindo. Acordei cedo, tomei um banho, vesti-me adequadamente e saí para o Cemitério da Paz em Belo Horizonte. Às 9h eu participaria do culto fúnebre de Roger, jovem de 20 anos que morrera num acidente de moto algumas horas antes.

O ambiente era o pior possível: uma mãe desolada, um pai em estado de choque, e dezenas de jovens chorando como nunca. Roger morrera de madrugada, voltando de uma festa. Além de toda a dificuldade do luto, fica sempre difícil ter o que dizer numa hora dessas, visto que o jovem não caminhava com Deus. Nossas convicções soteriológicas não lhe outorgariam garantias positivas. Só o que fiz foi clamar pela misericórdia de Deus.

Nesse mesmo dia, a partir das 17h, recebi em casa dezenas de amigos com seus filhinhos para celebrar o aniversário de 4 anos de minha filha Pietra. Tinha pula-pula, piscina de bolinhas e muitos doces e salgadinhos. O ambiente era festivo. Mas minha cabeça não parava de funcionar.

Fiquei pensando como deveria ser quando Roger tinha quatro anos. Pensei nos aniversários dele, nos amiguinhos, nos pais. Vi-me chorando num canto da festa de minha própria filha. Saí do salão de festas, subi ao apartamento, tranquei-me no banheiro e deixei que viessem as lágrimas.

Curioso é que pela manhã eu não chorara no funeral. Agora, chorava desenfreadamente no aniversário de minha própria filha. Os sentimentos se misturaram. Comecei a questionar se, como pastor, sei mesmo me alegrar com os que se alegram e chorar com os que choram (Rm.12:15).

A verdade é que a tragédia vai tomando proporções de normalidade, e nossa sensibilidade vai a pique. Chegamos quase ao ponto de felicitar em funerais e consolar em aniversários. Sim, embola tudo. Precisei da que a Graça do Senhor me socorresse.

E Ele socorreu. Que Deus tenha misericórdia. De mim. De Pietra. Da família de Roger. E de toda a Sua igreja. Amém!



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Mário Freitas é pastor em BH. Foi missionário na China, e atualmente coordena projetos humanitários no Haiti através da organização M.A.I.S.


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