quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Agostinho – A Oração é o Caminho da Alegria Soberana




- O lugar da oração na busca da alegria-

O remédio proveniente da parte de Deus para esta condição de "frieza" é o despertar gracioso de uma alegria soberana. Mas da parte do homem é a oração e a manifestação do próprio Deus como infinitamente mais desejável do que toda criação. Não é por mero artifício literário que todas as páginas das Confissões tenham sido escritas como uma oração. Todas as sentenças são dirigidas a Deus. Isso é espantoso e exigiu uma enorme disciplina literária de Agostinho, para não cair em qualquer outro gênero. O ponto principal dessa disciplina é o fato de Agostinho ser completamente dependente de Deus para o despertar do amor a Deus. E não é coincidência que as orações de Mônica, mãe de Agostinho, impregnem as Confissões. Ela suplicou por ele quando este não era capaz de rogar por si mesmo.

Agostinho nos aconselha: "Repita com o salmista: 'Uma coisa pedi ao Senhor, é o que procuro: que eu possa viver na Casa do Senhor todos os dias da minha vida, para contemplar a bondade do Senhor e buscar sua orientação no seu templo"' (SI 27.4). Ele então afirma: "A fim de que possamos viver esta vida feliz, ele, que é a verdadeira vida santa, nos tem ensinado a orar".64 Agostinho nos mostrou a maneira como orava pelo triunfo da alegria em Deus: "O Deus, que eu possa te amar [Livremente],

pois não posso achar nada mais precioso. Não desvies tua face de mim, para que possa achar o que procuro. Não rejeites em ira teu servo, para que ao te procurar não corra atrás de outrem (...) Sê tu meu auxílio. Não me deixes, nem me desampares, O Deus meu Salvador".

As orações de sua mãe tornaram-se a escola na qual aprendeu coisas profundas a respeito das palavras de Jesus em João 16.24. "Até agora vocês não pediram nada em meu nome. Peçam e receberão, para que a alegria de vocês seja completa." A oração é o caminho para a plenitude da alegria soberana. Mas que estranho e tortuoso caminho! Mônica havia aprendido a paciên¬cia através da dor de orações que por muito tempo não foram respondidas. Por exemplo, seu marido, Patricius, foi-lhe infiel. Mas Agostinho relembra nas Confissões que "a paciência dela era tão grande que a infidelidade dele nunca se tornou rixa entre eles. Pois ela olhava para ti, para que tu viesses a demonstrar-lhe ma misericórdia, para que a castidade viesse por meio da fé (...) Por fim, ela o conquistou para ti [O Deus], um convertido nos últimos dias de sua vida aqui na Terra".

Ficaria comprovado que a mesma coisa ocorreria com seu filho. Mônica, disse Agostinho, "chorava por mim, mais do que as mães choram a morte física dos filhos". Quando seu filho era um herético maniqueísta, Mônica procurou a ajuda de um velho bispo. O conselho dele não foi aquilo que ela gostaria de ouvir. Ele também havia sido um maniqueísta, mas já havia percebido sua própria insensatez. "Deixe-o onde está", disse a ela. "Limite-se a orar por ele ao Senhor; ele descobrirá por si mesmo, através da leitura, o erro e toda impiedade desta doutrina (...) Vá e viva em paz, pois é impossível que possa perecer o filho destas lágrimas".

Com 16 anos, em 371, logo após a morte de seu pai, Agostinho safou-se de sua mãe em Cartago e navegou para Roma. "De noite, parti secretamente, deixando-a sozinha com suas lágrimas e suas orações". Como foram estas orações respondidas? Não da maneira esperada por Mônica naquela época. Somente mais tarde ela pôde ver as verdades das palavras de Jesus concretizadas em sua vida: que a oração é o caminho para a mais profunda alegria. "Que te pedia ela, ó Deus, com tantas lágrimas, senão que impedisses a minha viagem? Mas tu, em teus misteriosos desígnios, escutando o ponto vital de seus desejos, não atendeste ao que ela te pedia, exatamente para realizares em mim a aspiração das suas contínuas preces".

Mais tarde, logo após sua conversão, ele relatou para sua mãe o que Deus havia realizado em resposta a suas orações:

Fomos imediatamente à minha mãe e lhe contamos o sucedido [minha conversão]. Ela ficou radiante de felicidade. E, ao descrevermos tudo quanto me havia acontecido, exultante e triunfante ela te glorificou, tu que és suficientemente poderoso e mais do que suficientemente poderoso para executar teus propósitos além de nossos sonhos e expectativas. Pois ela verificou que lhe havias concedido muito mais do que havia pedido com lágrimas em suas orações e lamentações. De tal maneira me convertestes a ti, que já não procurava esposa, nem colocava esperança alguma nas coisas terrenas, mas permaneci firme na fé. Transformastes sua tristeza em regozijo. Alegria mais completa do que seu desejo mais elevado, mais doce e mais pura e casta do que poderia esperar de filhos nascidos da minha carne.

Essa foi a lição que Agostinho aprendeu da ininterrupta labuta de oração de sua mãe. Não aquilo que ela pensava ser seu desejo imediato, mas o que ela mais profundamente desejava, algo duradouro — Deus lhe deu "gozo mais profundo do que seu desejo mais precioso". "Peçam e receberão, para que a alegria de vocês seja completa" (João 16.24).

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