segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Chamados pra fazer a indiferença



Eder Barbosa de Melo



Nos primeiros impulsos de nossa fé, é comum nos apropriamos dos discursos alheios, nos basearmos em quem consideramos mais experientes, acabamos reproduzindo falas e atitudes que nem sempre são nossas. As coxias dos púlpitos estão abarrotadas de aspirantes vislumbrando hierarquias e notoriedade. Na ânsia de alcançar patamares ministeriais, via de regra, perde-se a identidade e a propriedade do pensamento. Por muito tempo repetimos discursos como se nos pertencessem.

Há muito tempo se tornou lugar comum afirmar que somos chamados para fazer a diferença, tema de sermões, congressos, músicas, livros (e blogs). Nunca se fez tanta menção ao verso do profeta Malaquias, 3:18: "Então vereis a diferença entre o justo e o ímpio; entre o que serve a Deus, e o que não o serve". Pois, desisti do pretenso propósito de ser diferente. Ultimamente, penso que fomos chamados para ser cada vez mais iguais.

Sou tomado por uma concepção inconteste: Jesus não era diferente! O fato de ser filho de Deus o aproximava das pessoas, não o contrário. Em nenhum momento a diferença o fez soberbo, nem o privilegiou numa casta superior. Seu discurso era claro, franco, não menos poético. Jesus era igual a todos nos costumes da cultura de seu povo, no trato com as pessoas, sensível para com os que sofriam. Ele sentava-se a mesa com pecadores, quebrava paradigmas sócio-culturais e regionais, surpreendia o farisaísmo, porque desde o início de seu ministério, igualou-se a todos.

Não quero fazer a diferença que nobilita o homem, nos inspirando falsa preeminência divina, munindo-nos de poder de julgamento condenatório. Não vou mais compactuar com a diferença que exclui o menos favorecido, cujos anelos se fundamentam na aparência de humildade, obscurecendo ambição e intenções de poder. Desprezo a diferença com ar de compaixão, mas que suplanta a pobreza, ludibria os miseráveis e os encerra num ciclo de manipulação. Não agüento mais a diferença rasa que não condiz com a cultura de um país tropical, pretexto para o falso moralismo e a altivez espiritual.

O fato é que muitos crentes associam fazer diferença a impor sua superioridade. Não se misturam com a gentalha, não se associam com os impuros, extremamente preconceituosos, acreditam piamente que possuem o domínio sobre o Reino e a herança de Deus, co-fundadores e guardiões da entrada da Nova Jerusalém onde estabelecem, segundo seus parâmetros, quem é apto ou não para a Salvação. Sua luz precisa ofuscar com voracidade as trevas. Afinal, a promessa é pra ele, o galardão é pra ele, o direito é dele. E o resto? Que tudo mais vá pro inferno.

Ser diferente é muito chato. Prefiro ser mais humano.

Fonte : http://recortecotidiano.blogspot.com

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