quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Um aconselhamento para morte

Nota da autora: As palavras das personagens reais deste texto foram tiradas, com pouquíssima edição, da seção “No divã com Caio” do site de Caio Fábio. O título do aconselhamento é: “A escolha de Sofia”.

Cena: Um homem evangélico, cristão desde pequeno e casado com uma missionária, recebe dos médicos a notícia de que a menininha que sua esposa carrega no ventre é portadora da síndrome de down. O fato não lhe desce pela garganta: “Por que Deus fez isso conosco, logo com minha mulher, que O ama tanto?” Os conflitos não parecem cessar, e juntos resolvem ir ter com um amigo cristão, psicólogo, que os aconselha a abortar a criança. “O nascimento traria muito mais dor para vocês e para a neném”, ponderou ele. Marcaram então o procedimento com o médico. Porém, se o homem estava racionalmente convencido, seu coração lhe dizia que talvez aquela não fosse a decisão correta.

Um dia antes da intervenção, o homem resolveu escrever a Caio Fábio, que tem um site com uma seção de aconselhamento. Explicou seu caso e expôs a ele sem pudores seu estado de alma: “Estamos terrivelmente abalados. Será pecado? Teríamos esse direito?” Pediu que Caio lhe dissesse se poderia livrar sua filha “de uma vida de preconceito, tratamentos dolorosos e morte prematura”.

– Por favor, me ajude a ter paz! –escreveu, por fim.

E mandou a mensagem para o correio do site de Caio.


Uma resposta de morte

O homem torturado por sua incapacidade de aceitar a vinda da filha doente queria uma resposta que satisfizesse a ambos: seu inconformismo e sua moral cristã. É o que deixa entrever com essas palavras: “Por favor, me ajude a ter paz!” Já havia tomado a decisão de abortar sua filha, mas pediu um dia antes a Caio Fábio, requisitado por muitos como sacerdote evangélico, que acalmasse seu espírito, endossando-a ou não. Era uma forma de tentar a Deus, para ver se de última hora Ele o impediria de fazer algo tão terrível, e ao mesmo tempo oferecia-se a um grande risco: o de receber uma resposta que, por seu impacto de verdade, pudesse convencê-lo a abdicar do controle sobre seu cronograma, a encostar em um canto suas expectativas sobre o filho que queria ter, a abrir à força na alma um espaço para amar um serzinho de olhos puxados que dependeria dele por toda a vida. Mas Caio lhe deu o que ele preferia ouvir:


Digo-lhe, com minha consciência limpa diante de Deus, que se eu estivesse em situação semelhante, com todas as dores desta vida, ainda assim aceitaria a sugestão do psicólogo e cristão. Pecado, meu irmão, é ter filhos sem amor. Foi somente quando eu decidi crer de todo o coração que Deus “sabe”, e sabe com verdade e amor quem eu sou e o que existe em meu coração; e que Ele não é moralista em seu saber, posto que a verdade não é moral, mas apenas verdade – foi então que fui aprendendo a andar em paz, até quando o mundo inteiro diz que estou errado.

No entanto, o casal não leu essa resposta: o tempo havia passado e, se Deus não interveio, pai e mãe prosseguiram com seus planos. No que teria dependido de Caio Fábio, se tivesse respondido a tempo, a menininha doente morreu sem conhecer a luz do dia – e com ela, ainda que não saibam disso, uma parte de seus pais morreu também.



Analisando a resposta de morte

Em A mente de Cristo, escrevi que as igrejas evangélicas brasileiras tendem a seguir o mundo quando cedem ao subjetivismo que caracteriza nossa época, particularizando tanto a mensagem do Evangelho que muitas vezes as afirmações dos púlpitos não desafiam as mentiras vigentes no mundo, pois não as tangenciam. Jesus, assim, raramente é apresentado como a luz que ilumina a todos os homens (João 1:9), ou seja, “para a humanidade”, mas apenas “para a sua vida”. É como se os Evangelhos servissem para resolver problemas pessoais, mas não trouxessem a resposta para a desordem do mundo. Isso, sem dúvida, é uma mutilação na forma de comunicar a verdade.

Uma outra maneira de entender isso é o seguinte: a lei é uma instância objetiva. São os mandamentos de Deus que nenhum homem pode descumprir sem se tornar um condenado à morte – e a Bíblia diz que todos a descumprem automaticamente depois do pecado original. A lei, portanto, como afirma Paulo, é para condenação, pois simboliza a ordem objetiva que Deus quer dar ao mundo, a todos nós, e que sozinhos não podemos alcançar. Mas Deus é um Deus também de subjetividade, e Jesus, que veio na forma de uma pessoa, mostrou isso claramente.

Porém, Ele tinha dito que não viera para anular a Lei. Essa é a questão. Ele veio para dizer que só com Ele essa ordem ideal de Deus é possível. Nele, somos capazes de satisfazer o padrão objetivo divino, ao sermos purificados por seu perdão. Nele alcançamos graça para não vivermos em pecado. Um dia, Ele restaurará toda a ordem do mundo, e não viveremos mais sujeitos ao pecado. Dessa forma, Ele une as duas pontas em si, objetividade e subjetividade, sem conflitá-las.

Raramente sabemos fazer isso, principalmente nos últimos três séculos. O objetivismo presente no racionalismo dominante desde Descartes tem feito crer que Deus está tão longe, encastelado em suas leis, que não olha para cada pessoa de modo específico. E seu oposto correlato, o subjetivismo? Consiste em crer que Deus está tão perto, tão apaixonado por nós, que não liga se quebramos as leis de vez em quando. É onde se firma Caio Fábio para aconselhar o casal ao aborto.

Diz ele: “o ato homicida no aborto é aquele praticado com descaso e frieza por aqueles que transam irresponsavelmente e decidem descartar as eventuais situações de gravidez (...) Essa, no entanto, não é a situação de vocês. Ao contrário, Deus vê a angústia de suas almas e o amor que vocês já têm por esse rebento que foi formado com uma deficiência de natureza irreversível, a qual, foi antecipadamente revelada a vocês. (...) se o casal foi informado durante a gestação, e se angustia com o que será de suas vidas e da vidinha da criança, a menos que surja uma súbita convicção da parte de Deus no coração, o que deve ser feito é o que vocês fizeram.”

Ou seja: ele não ignora a lei – aborto é homicídio – , mas a subjetiviza. Se o aborto for praticado com dor no coração, porque “Deus vê” de perto e sabe as nossas dores, passa a ser permitido. Assim, a lei é relativizada em prol da subjetividade humana! Em vez de caminhar lado a lado com a lei, a subjetividade passa a subordiná-la, tal como uma tirana disfarçada de bondade. Passa a importar menos o ato em si (destruição de um ser criado por Deus) que a motivação interior de quem o perpetra (recusa de aceitar a doença desse ser). Veja que Caio Fábio pretende inaugurar uma nova forma de direito: aquela que coloca as motivações acima da gravidade do ato. Ora, sabemos que a culpa pelo ato é minimizada pelas leis dos homens em alguns casos de emotividade extrema. Mas minimizada não significa apagada – nesse caso, o aborto continuou a ser homicídio, e como tal deveria ter sido desaconselhado em qualquer caso, não incentivado ou confirmado.

Além disso, o argumento-mestre de Caio Fábio passa a ser o seguinte: se vocês não conseguem suportar a idéia de receber a criança desse jeito, é porque Deus não não está lhes dando “convicção”, logo permite o aborto nesse caso específico. Ora, quem disse que os nossos sentimentos equivalem aos sentimentos de Deus? De novo, a subjetividade impera sobre a objetividade. Nesse andar, Caio Fábio acabará sancionando todos os seus atos e sentimentos – quando a Bíblia ensina que o coração do homem é enganoso e nossos pensamentos não são os de Deus. Podemos sentir paz quando Deus não nos dá paz e tomar decisões erradas em nossa vida, e é por isso que nossa subjetividade precisa ser constantemente moldada à luz de Seus preceitos. Creio firmemente que era esse Seu intento em toda a história: os sentimentos do casal – horror à idéia de criarem uma filha com síndrome de Down – seriam transformados se eles tivessem ouvido a Deus para essa grande oportunidade de transformação. Ele os ensinaria a amar a filha em suas imperfeições e limitações, a cuidar dela em todos os momentos; e mesmo se eles rejeitassem tal aprendizado ela jamais seria um “aborto vivo”, como afirma no mesmo texto Caio Fábio, pois a Bíblia fala dos filhos desprezados pelos pais que Ele acolhe: “Eu serei seu pai e sua mãe.” Em nenhum momento a criança seria abandonada.

Em seu humanismo e seus argumentos torcidos, porém, Caio Fábio chamou o caso de “Escolha de Sofia” (mal ou mal) e só pôde vislumbrar morte nas duas opções: tanto no nascimento da menina, que significaria para ele a morte simbólica dos pais, quanto na sua morte, morte real, a pior opção, irreversível e fonte de culpas sem fim. Com Deus, a primeira opção significaria sempre vida, e vida em abundância, pois Ele não desampara Seus filhos. Mas Caio não viu a graça que dá vida, e suas palavras foram de morte. Peço a Deus que as vivifique, pelo bem de sua alma e das pessoas que ainda irão ouvi-lo.

fonte:
http://normabraga.blogspot.com/2006/02/um-aconselhamento-para-morte.html

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