segunda-feira, 27 de junho de 2011

Uma Palavra Mágica - J. I. Packer






A palavra reforma é mágica para meu coração, assim como sei que é para o seu. Dizemos reforma e imediatamente pensamos naquela época heróica do século dezesseis em que tantos eventos portentosos se deram que ainda chamejam em nossa imaginação.

Nossa Herança da Reforma

Pensamos, por exemplo, em Martinho Lutero pregando suas noventa e cinco teses na porta da Igreja do Castelo de Wittenberg, desafiando, conforme transpareceu, todo o sistema religioso do seu tempo. Pensamos em Lutero em Worms uns anos após, enfrentando o sagrado imperador romano e sendo ordenado a retirar seus desafios e seu testemunho da justificação pela fé.

A resposta famosa que deu ao imperador, aos nobres e aos dignitários eclesiásticos da Europa central foi essa: "A não ser que os senhores me provem pela Escritura e pela razão que eu estou errado, não poderei e não me disporei a voltar atrás. Minha consciência está sujeita à Palavra de Deus. Ir contra a consciência não é direito nem seguro. Aqui fico. E que Deus me ajude. Amém". Essas palavras magníficas têm ecoado até nós através dos séculos, e com justiça.

Lutero manteve-se firme em sua fé. Traduziu a Bíblia para o alemão e pregou e escreveu incansavelmente para difundir a mensagem do evangelho. Tornou-se o pioneiro da reforma. Seu nome certamente será honrado enquanto durar a História.

Lembramo-nos também de João Calvino, aquele erudito recatado que só queria ser um homem de letras que estivesse lendo e escrevendo livros durante a vida inteira. Mas o feroz Guillaume Farel de barba ruiva lhe disse que ele precisava se estabelecer em Genebra para ali tomar parte no trabalho da Reforma, e ele fez isso. Com apenas quatro horas de sono por noite, não só pregava sermões diariamente e se desincumbia de suas responsabilidades pastorais, como também labutava com a caneta, produzindo entre outras obras-primas as Institutas, essa grande declaração cristã que para muitos de nós ainda está numa classe à parte. Também escreveu comentários sobre a maioria dos livros da Bíblia, estabelecendo novos e elevados padrões de exposição fiel. Calvino faleceu aos cinqüenta e cinco anos, completamente esgotado — outro dos heróis de Deus.

Também nos vem à memória João Knox, obrigado a passar uns dois anos como escravo remador de galé por causa de suas atividades como reformador, e finalmente recompensado por algumas semanas extraordinárias durante as quais praticamente toda a Escócia aderiu à Reforma. De um dia para outro a Escócia tornou-se a nação tenazmente protestante que tem sido desde então.

Os mártires ingleses também nos vêm ao pensamento. Pelo mérito destaca-se em primeiro lugar William Tyndale, que desafiou o rei traduzindo a Bíblia. E acabou condenado à fogueira na Bélgica porque Henrique VIII alertou a Europa toda de que ele precisava ser morto.

Depois houve Thomas Cranmer, o arcebispo de Henrique em Cantuária, que aguardou até ser possível produzir uma confissão de fé reformada e um livro de orações reformado para a Igreja Anglicana. Mas cedo demais Eduardo VI, seu patrocinador real neste empreendimento, morreu, e Mary tornou-se rainha. Ela decidia levar a Inglaterra de volta à Roma. Mandou à fogueira uns 330 protestantes ingleses, incluindo cinco bispos — e Cranmer foi um deles. Jogaram-no na prisão, onde ele foi colocado sob pressão intolerável — hoje daríamos a isso o nome de lavagem cerebral. Por causa da pressão extrema, Cranmer retratou-se de suas convicções protestantes, assinando seis documentos nesse sentido poucos dias antes de morrer na fogueira. Tinham-lhe dito que se assinasse seria perdoado. Quando descobriu no dia seguinte que seria queimado vivo assim mesmo, passou a noite em claro retratando-se por escrito daquela primeira retratação. Leu isso em voz alta na Igreja de Saint Mary, em Oxford, na presença de seus acusadores estupefatos, que logo apressaram sua saída para a fogueira. Morreu estendendo a mão direita às chamas, assim cumprindo uma promessa daquela sua última fala: "E posto que minha mão ofendeu, escrevendo contrário a meu coração, minha mão será punida primeiro por isso; pois seja eu levado ao fogo, será queimada primeiro".

Estes casos de heroísmo cristão continuam vivos, assim como continuam preciosas as verdades pelas quais esses reformadores viveram e morreram. Então quando dizemos a reforma, naturalmente pensamos nos eventos e damos graças a Deus por eles. As riquezas de sabedoria entesouradas na teologia dos Reformadores são mais do que já temos dominado hoje, e a força altruísta do testemunho à verdade desses Reformadores nos é uma inspiração constante. É deles a fé pela qual eu vivo e pela qual espero morrer, e eu confio que isto seja verdade para você também. Graças a Deus pela Reforma!

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