quarta-feira, 26 de outubro de 2011

A Avidez pelo Dinheiro – João Calvino (1509 - 1564)


Mas tu, ó homem de Deus, foge dessas coisas... (1 Tm 6.11,12) - Ao denominar Timóteo de homem de Deus, o apóstolo adiciona peso à sua exortação. Se alguém concluir ser conveniente restringir sua aplicação ao apelo para seguir após a justiça, a piedade, a fé e a paciência, ao que ele está precisamente dizendo, então este será o seu antídoto para corrigir-se a avidez pelo dinheiro. Ele diz a Timóteo que as aspirações que ele devia seguir são de caráter espiritual. Mas pode aplicar-se ainda mais amplamente ao contexto mais remoto, ou seja, que Timóteo, mantendo-se isento de toda vaidade, evitasse a fútil curiosidade, [perierguia], a qual condenara um pouco antes. Aquele que se mantém totalmente ocupado com as questões básicas, facilmente se manterá livre das coisas que são supérfluas. Ele menciona algumas formas de virtudes, à luz das quais podemos concluir que as demais estão também incluídas. Quem quer que se devote a buscar a justiça, que almeje a piedade, a fé e o amor, e que cultive a paciência e a mansidão, não poderá deixar de abominar a avareza e seus frutos.



Combate o bom combate. Na próxima epístola ele diz que nenhum soldado se envolve em negócios alheios à sua vocação [2 Tm 2.4]. Por isso aqui, com o fim de poupar Timóteo de excessiva preocupação com os afazeres terrenos, ele o exorta a lutar. A displicência e o comodismo emanam da preocupação que os homens sentem em servir a Cristo sem problemas, como se fosse um passa-tempo, enquanto que Cristo convoca a todos os seus servos para a guerra. Com o fim de encorajar Timóteo a lutar bravamente no campo de batalha, o apóstolo denomina essa luta de bom combate, ou seja, combate abençoado e que, portanto, de forma alguma deve ser evitado. Pois se os soldados terrenos não hesitam em combater quando a vitória é incerta e correm o risco de perder a vida, quanto mais bravamente devemos nós lutar sob o comando e a bandeira de Cristo, onde podemos alimentar de antemão a certeza da vitória, especialmente quando sabemos que há um galardão à nossa espera, o qual está muito acima dos galardões geralmente conferidos pelos comandantes a seus homens, ou seja, uma gloriosa imortalidade e a bem-aventurança celestial. Seria indigno se com uma esperança dessa natureza diante de nós ainda esmorecêssemos ou caíssemos pela exaustão. E isso é precisamente o que o apóstolo continua dizendo.



Toma possa da vida eterna. É como se ele dissesse: "Deus te convoca para a vida eterna, portanto despreza o mundo e esforça-te por alcançá-la." Ao dizer a Timóteo que tomasse posse dela, ele o proíbe de desistir ou de deixar-se dominar pelo cansaço em meio à trajetória. E como se dissesse: "Nada se concretiza até que tenhamos obtido a vida futura, à qual Deus nos convida." Por conseguinte, em Filipenses 3.12 ele declara que se esforçava por progredir, visto que a vida eterna não estava ainda concretizada.


Para a qual foste chamado. Visto, porém, que os homens lutam precipitadamente e sem qualquer objetivo de caráter perene, caso não tenham ainda Deus a dirigir sua trajetória e a estimulá-los à atividade, o apóstolo menciona também a vocação deles. Nada poderá encher-nos de mais coragem do que o reconhecimento de que fomos chamados por Deus. Pois desse fato podemos inferir que o nosso labor, que está sob a direção divina e no qual Deus nos estende sua mão, não ficará infrutífero. Portanto, pesaria sobre nós uma acusação muito grave caso rejeitássemos o chamado divino. Contudo, deve exercer sobre nós uma influência muito forte ouvir: "Deus te chamou para a vida eterna. Cuidado para que não te desvies para alguma fantasia, ou de alguma forma fracasses no caminho antes que o tenhas percorrido."



E fizeste a boa confissão. Ao mencionar a vida pregressa de Timóteo, Paulo o incita ainda mais a perseverar. Fracassar depois de ter feito um bom começo é mais lamentável do que nunca haver começado. A Timóteo, que até então havia agido bravamente e granjeado louvor, o apóstolo apresenta este poderoso argumento: que o seu ponto de chegada correspondesse ao seu ponto de partida. Entendo confissão, aqui, no sentido não de algo expresso verbalmente, mas, antes, de algo realizado de forma concreta, e não numa única ocasião, mas ao longo de todo o seu ministério. Significando, pois: "Tu contas com muitas testemunhas de tua pública confissão, tanto em Éfeso como em outros países, a saber: que elas têm assistido a tua viva fidelidade e seriedade em teu testemunho do evangelho; e tendo transmitido um exemplo tão positivo, agora outra coisa não podes ser senão um bom soldado de Cristo, caso não queiras incorrer em maiores vexames e infortúnios." A luz desse fato aprendemos a seguinte lição geral: quanto mais eminentes nos tornamos, menos justificativa temos em fracassar e mais obrigados somos a nos manter em nossa firme trajetória.

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